Rogério Skylab: escatologia em dez movimentos

14/12/2006 at 20:38 4 comentários

Rogério Skylab
“(…) Boceta vezes dedos, noves fora CÚ (…)” (Dedo, língua, cu e boceta)

“O meu trabalho tem muito palavrão, mas também tem muita música que não tem palavrão. Nos meus discos têm muitas músicas que eu não uso palavrão. As pessoas pensam que é só palavrão… não é.” Palavrão é o caralho. O que incomoda ao ouvir Skylab são os temas que ele aborda, e a maneira que os trata. O desconforto é natural, mas às vezes uma música calcada no mal-estar pode fazer bem.

Rogério Skylab canta o mórbido, o repulsivo e o fisiológico de modo corriqueiro, com uma certa dose de inocência, até. Coloca pra fora as sensações que ficam escondidinhas, bem fundo, nas Senhoras de Santana, e trata o cu com a simplicidade de quem assume que tem um. Rogério é verdadeiro ao valorizar o falso e trabalha para chegar à loucura através da razão; isso incomoda muito mais do que um palavrão.

O Skylab atual é o VI, de X. Dez e ponto final. Acaba de lançar, também, seu primeiro livro de poesias, Debaixo das rodas de um automóvel. Após fechar a noite 2 do Demo Sul 2006 (a 6ª edição do festival), Rogério concedeu uma entrevista ao bob. [Colaborou Pietro Luigi, o loucão de fraldas.]

Rogério Skylab
“(…) Teus olhos são duas hemorróidas/A escorrer (…)” (Lágrimas de sangue)

bob – Skylab, é tudo verdade?

Rogério Skylab – Esse negócio de verdade é uma coisa até meio démodé, né? Eu, por exemplo, valorizo o falso. O falso ao máximo de potência. Ou então, uma verdade produzida, porque essa palavra verdade é uma palavra estranha. Como se existisse verdade… É tudo produzido. É tudo criado. É verdade produzida, então pode ser falsa.

Sabe, essa idéia de verdade é uma idéia meio esquisita. O que é verdade? Ter a ver com a minha vida, é isso? A minha música é vivencial, mas ela não é biográfica. Há uma diferença entre o vivencial e o biográfico. O que eu vou cantar não tem nada a ver com o que aconteceu com a minha vida.O meu trabalho não é biográfico, mas é vivencial. O biográfico está ligado aos fatos, o vivencial está ligado às sensações. Sacou? Então o meu trabalho é vivencial, não é biográfico.

bob – Não é verdade, mas é verdadeiro.

Rogério Skylab – É, pode ser. Pode ser…

Rogério Skylab
“(…) mas tem uma trolha!!! (…)” (Carrocinha de cachorro quente)

bob – O que é mais difícil, cagar de bruços ou falar mais que o Jô Soares?

Rogério Skylab – O que acontece com o Jô é o seguinte: ele e a produção do programa – tem que ver isso, não é só o Jô não, é a produção -, eles curtem o trabalho. E a partir do momento em que eles curtem o trabalho, eles abrem as pernas. Eu posso fazer o que eu quiser ali dentro, porque o espaço é meu ali. Sabe, eles respeitam pra caralho. Aí, porra, é isso. Eles gostam do trabalho. E outra coisa: não tenho nenhuma relação pessoal com o Jô Soares. Nada. O que eu fiz é o que toda banda independente faz: pega o release, pega o disco, e manda pra produção. Eu tive a sorte de mandar uma, eles nem responderam; mandei a segunda, eles nem responderam; mandei a terceira, e eles responderam que gostaram. Entendeu como é que é o lance?

Eu acho que o trabalho da banda independente é isso. É mandar, é mandar, mandar, e encher o saco o tempo todo. Quantos outros programas que eu mando e não dá em porra nenhuma. Por exemplo, da TV Globo, Serginho Groisman, o negócio da madrugada lá [Altas Horas]. Porra nenhuma! Então, ao mesmo tempo em que eu tive um canal, outros têm as portas fechadas pra mim. Completamente. Não é nada fácil não, viu.

bob – O mais importante no seu trabalho é a música ou a poesia?

Rogério Skylab – Não tem essa diferença. Eu sou um cara que venho da literatura. Eu vou, inclusive, publicar um livro agora, um livro de poesia – e vou lançar lá no programa do Jô – um livro de poesia mesmo. Agora, há uma diferença fundamental entre poesia escrita e música. Na música que eu faço, a letra nasce simultaneamente com a música. Então não há essa diferença. Não tem esse negócio de você falar assim: “o Skylab privilegia mais a letra do que a música”. Está errado! A minha concepção de música é foda: os arranjos, os ensaios, sabe? A música pra mim é muito importante. Esse tipo de som que a gente faz aí, para a gente fazer não é fácil. Foi muito trabalho em cima, sacou? Então não tem esse negócio de privilegiar mais o texto do que a música. Não é por aí.

Rogério Skylab
“Eu quero saber quem matou Tom Zé (…)” (Samba)

bob – Pra encerrar, são os dez discos e pronto?

Rogério Skylab – Exatamente.

bob – Não nove, não onze, por quê?

Rogério Skylab – Eu aprendi muito com os Beatles e com os Sex Pistols, ou seja, interromper no meio. Acabou! Ao contrário da MPB. Você vê essa turma da MPB, Caetano, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, eles não aprenderam a lição do Pelé. A maior lição que ele deu: parar na hora certa. E isso é uma coisa muito séria. Porque nesses artistas da MPB, a vaidade é maior do que a arte. Se você for artista mesmo, você tem saber dar o ponto final. O ponto final não é só na música e no texto não, é o ponto final na tua própria vida. Arte é saber dar o ponto final. E o que esses caras da MPB fazem… eles não dão o ponto final. Por quê? Porque eles são mais vaidosos do que artistas. Eu aprendi muito mais com os Beatles e o Sex Pistols do que com o pessoal da MPB.

É bizarro você ver um show do Milton Nascimento. É bizarro! O cara está quase caindo. E era um cara que cantava pra caralho. Fez um disco chamado “Clube da Esquina” que era uma porrada! Você vê hoje o Milton Nascimento cantando, é bizarro. É bizarro! Eu não quero viver isso.

bob – Mas você pensa no ponto final já desde o início?

Rogério Skylab – É. O meu trabalho é muito racional, é muito planejado. Parece que é loucura? Não tem nada de loucura. O meu trabalho é o seguinte: é como eu posso chegar na loucura através da razão. Tudo milimetricamente formado, planejado, às raias da loucura. Não é porra louca não. É o contrário. É chegar na loucura pela razão. Então existe um flerte entre razão e loucura. Meu trabalho está ligado, o tempo todo, entre razão e loucura. Tudo isso aí é mi-li-me-tri-ca-men-te planejado. Não tem nada improvisado. Nada! E, aí sim, dá a sensação de loucura através de um planejamento quase esquizofrênico. Neurótico. Planejar às raias da perfeição, e chegar na loucura pela razão.

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>> Veja as fotos de Skylab no Demo Sul 2006.

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4 Comentários Add your own

  • 1. Merluza  |  14/12/2007 às 9:42

    Lixo! Só para ganhar dinheiro de vocês para ajudar traficante comprando drogas. Tem otário para tudo

  • 2. Andre  |  02/11/2008 às 3:54

    Ótima entrevista, Rogério Skylab é um gênio, o maior contemporâneo de nosso tempo, vanguardista.

    [off]Merluza, qual o seu problema?

  • 3. Anônimo  |  29/03/2012 às 16:22

    Merluza é uma otária que não sabe de nada…

  • 4. Robson  |  20/01/2014 às 17:36

    Também acho o Skylab foda pra caralho. Encaro as letras dele tanto de forma metafórica quanto literal (ou quase literal, se é que existe o termo), e nenhuma delas me trazem repulsa.

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