Rogério Skylab: escatologia em dez movimentos

14/12/2006

Rogério Skylab
“(…) Boceta vezes dedos, noves fora CÚ (…)” (Dedo, língua, cu e boceta)

“O meu trabalho tem muito palavrão, mas também tem muita música que não tem palavrão. Nos meus discos têm muitas músicas que eu não uso palavrão. As pessoas pensam que é só palavrão… não é.” Palavrão é o caralho. O que incomoda ao ouvir Skylab são os temas que ele aborda, e a maneira que os trata. O desconforto é natural, mas às vezes uma música calcada no mal-estar pode fazer bem.

Rogério Skylab canta o mórbido, o repulsivo e o fisiológico de modo corriqueiro, com uma certa dose de inocência, até. Coloca pra fora as sensações que ficam escondidinhas, bem fundo, nas Senhoras de Santana, e trata o cu com a simplicidade de quem assume que tem um. Rogério é verdadeiro ao valorizar o falso e trabalha para chegar à loucura através da razão; isso incomoda muito mais do que um palavrão.

O Skylab atual é o VI, de X. Dez e ponto final. Acaba de lançar, também, seu primeiro livro de poesias, Debaixo das rodas de um automóvel. Após fechar a noite 2 do Demo Sul 2006 (a 6ª edição do festival), Rogério concedeu uma entrevista ao bob. [Colaborou Pietro Luigi, o loucão de fraldas.]

Rogério Skylab
“(…) Teus olhos são duas hemorróidas/A escorrer (…)” (Lágrimas de sangue)

bob – Skylab, é tudo verdade?

Rogério Skylab – Esse negócio de verdade é uma coisa até meio démodé, né? Eu, por exemplo, valorizo o falso. O falso ao máximo de potência. Ou então, uma verdade produzida, porque essa palavra verdade é uma palavra estranha. Como se existisse verdade… É tudo produzido. É tudo criado. É verdade produzida, então pode ser falsa.

Sabe, essa idéia de verdade é uma idéia meio esquisita. O que é verdade? Ter a ver com a minha vida, é isso? A minha música é vivencial, mas ela não é biográfica. Há uma diferença entre o vivencial e o biográfico. O que eu vou cantar não tem nada a ver com o que aconteceu com a minha vida.O meu trabalho não é biográfico, mas é vivencial. O biográfico está ligado aos fatos, o vivencial está ligado às sensações. Sacou? Então o meu trabalho é vivencial, não é biográfico.

bob – Não é verdade, mas é verdadeiro.

Rogério Skylab – É, pode ser. Pode ser…

Rogério Skylab
“(…) mas tem uma trolha!!! (…)” (Carrocinha de cachorro quente)

bob – O que é mais difícil, cagar de bruços ou falar mais que o Jô Soares?

Rogério Skylab – O que acontece com o Jô é o seguinte: ele e a produção do programa – tem que ver isso, não é só o Jô não, é a produção -, eles curtem o trabalho. E a partir do momento em que eles curtem o trabalho, eles abrem as pernas. Eu posso fazer o que eu quiser ali dentro, porque o espaço é meu ali. Sabe, eles respeitam pra caralho. Aí, porra, é isso. Eles gostam do trabalho. E outra coisa: não tenho nenhuma relação pessoal com o Jô Soares. Nada. O que eu fiz é o que toda banda independente faz: pega o release, pega o disco, e manda pra produção. Eu tive a sorte de mandar uma, eles nem responderam; mandei a segunda, eles nem responderam; mandei a terceira, e eles responderam que gostaram. Entendeu como é que é o lance?

Eu acho que o trabalho da banda independente é isso. É mandar, é mandar, mandar, e encher o saco o tempo todo. Quantos outros programas que eu mando e não dá em porra nenhuma. Por exemplo, da TV Globo, Serginho Groisman, o negócio da madrugada lá [Altas Horas]. Porra nenhuma! Então, ao mesmo tempo em que eu tive um canal, outros têm as portas fechadas pra mim. Completamente. Não é nada fácil não, viu.

bob – O mais importante no seu trabalho é a música ou a poesia?

Rogério Skylab – Não tem essa diferença. Eu sou um cara que venho da literatura. Eu vou, inclusive, publicar um livro agora, um livro de poesia – e vou lançar lá no programa do Jô – um livro de poesia mesmo. Agora, há uma diferença fundamental entre poesia escrita e música. Na música que eu faço, a letra nasce simultaneamente com a música. Então não há essa diferença. Não tem esse negócio de você falar assim: “o Skylab privilegia mais a letra do que a música”. Está errado! A minha concepção de música é foda: os arranjos, os ensaios, sabe? A música pra mim é muito importante. Esse tipo de som que a gente faz aí, para a gente fazer não é fácil. Foi muito trabalho em cima, sacou? Então não tem esse negócio de privilegiar mais o texto do que a música. Não é por aí.

Rogério Skylab
“Eu quero saber quem matou Tom Zé (…)” (Samba)

bob – Pra encerrar, são os dez discos e pronto?

Rogério Skylab – Exatamente.

bob – Não nove, não onze, por quê?

Rogério Skylab – Eu aprendi muito com os Beatles e com os Sex Pistols, ou seja, interromper no meio. Acabou! Ao contrário da MPB. Você vê essa turma da MPB, Caetano, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, eles não aprenderam a lição do Pelé. A maior lição que ele deu: parar na hora certa. E isso é uma coisa muito séria. Porque nesses artistas da MPB, a vaidade é maior do que a arte. Se você for artista mesmo, você tem saber dar o ponto final. O ponto final não é só na música e no texto não, é o ponto final na tua própria vida. Arte é saber dar o ponto final. E o que esses caras da MPB fazem… eles não dão o ponto final. Por quê? Porque eles são mais vaidosos do que artistas. Eu aprendi muito mais com os Beatles e o Sex Pistols do que com o pessoal da MPB.

É bizarro você ver um show do Milton Nascimento. É bizarro! O cara está quase caindo. E era um cara que cantava pra caralho. Fez um disco chamado “Clube da Esquina” que era uma porrada! Você vê hoje o Milton Nascimento cantando, é bizarro. É bizarro! Eu não quero viver isso.

bob – Mas você pensa no ponto final já desde o início?

Rogério Skylab – É. O meu trabalho é muito racional, é muito planejado. Parece que é loucura? Não tem nada de loucura. O meu trabalho é o seguinte: é como eu posso chegar na loucura através da razão. Tudo milimetricamente formado, planejado, às raias da loucura. Não é porra louca não. É o contrário. É chegar na loucura pela razão. Então existe um flerte entre razão e loucura. Meu trabalho está ligado, o tempo todo, entre razão e loucura. Tudo isso aí é mi-li-me-tri-ca-men-te planejado. Não tem nada improvisado. Nada! E, aí sim, dá a sensação de loucura através de um planejamento quase esquizofrênico. Neurótico. Planejar às raias da perfeição, e chegar na loucura pela razão.

[+]

>> Veja as fotos de Skylab no Demo Sul 2006.

Entry Filed under: Entrevistas, Música. .

2 Comments Add your own

  • 1. Merluza  |  14/12/2007 at 9:42

    Lixo! Só para ganhar dinheiro de vocês para ajudar traficante comprando drogas. Tem otário para tudo

  • 2. Andre  |  02/11/2008 at 3:54

    Ótima entrevista, Rogério Skylab é um gênio, o maior contemporâneo de nosso tempo, vanguardista.

    [off]Merluza, qual o seu problema?

Leave a Comment

hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


bob

pop ao contrário


blogbob ARROBA
gmail PONTO com

Daniel Ferraz

[+]

Nipofilia >> Os nossos japoneses
são mais doentes do que os outros

Os Almeida >> MySpace // Tramavirtual

>> Last.fm
>> LibraryThing
>> Orangotag
>> Orkut

Feeds

Categorias

Posts mais lidos

Comentários mais recentes

Anonymous em Spam pra diabo
wesley em Os nossos japoneses são mais d…
willians em Spam pra diabo
Anonymous em Spam pra diabo
julianne em Spam pra diabo
julianne em Spam pra diabo

Posts mais recentes

Arquivos

Animação

Blogroll

Fotos

Quadrinhos

Uncategorized